quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Nem o certo, nem o errado, apenas o coerente!!!


Tudo aliás é a ponta de um mistério. Inclusive os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo.


O Verso de Logundedé

O olho a mirar-se retoma às questões edipianas das quais se funda o ser. E é com um olhar, talvez sublimado, que nos velamos a apreciar o apreciado. É preciso, contudo, temer o reflexo pois o convite reafirma a passagem, paisagem, que implicam em atalhos. Sigamos seguros de nossos passos para não nos perdermos nas estreitas trilhas/linhas da mata, nem nos afogarmos na água encantado com o seu canto… A ordem, por sua vez, se desfigura à medida em que nos deparamos às avessas, com o (in)verso que se torna o (uni)verso. Sendo assim, as histórias - não as da fada - mas a do próprio homem constitui num material inacabado no que o projeta além.
E projetando, sempre, reportemo-nos à memória como fonte a agregar em nós os símbolos preexistentes de uma conjugação sensitiva. Recorramos, portanto as histórias da água e de seu morador como uma tentativa exausta de prendê-los, sabendo ser (im)possível, sugerimos à água, fonte inesgotável, a jorrar sempre, o novo. O conto não se trata “daqueles” de pescador, mesmo sendo Logunedé o pescador e o peixe. Paradoxo à vista, visionamos, ao longe, o campo onde se constitui as tramas desse orixá.

A trajetória enquanto ato rítico consiste ao culto dos deuses iorubanos, do povo Ijexá, trazido pelos negros escravos a partir da travessia oceânica. O percurso dos ancestrais perpetua, de modo a nos fazer voltar, senão à origem, aos verdadeiros descendentes da tribo a contar. Sobre esse contar, a manifestação da vida se fez/faz presente - ethos do povo - a presentear pelos tempos, o culto que se tornou divino pelos ritos do candomblé, desestruturando o tempo na cadeia da língua que se assume sobre os mitos.

A conferência ao mito forja o tempo real, seguindo o curso dos homens na continuidade do tempo, contando-os. O povo poeta guarda os segredos camuflados da natureza interpretados por deuses numa escala de iniciação. A voz que se assume não é a das musas, mas a do poeta povo que se preserva a partir da fala em que se situa o sagrado como manifestação da própria vida. Neste seio, a única garantia do mito é de manter-se sempre a ser desvelado, desvendando; como segue a fala do autor: “Os mitos persistirão, nós não, ser poeta é um pouco esta ilusão”. Pela ilusão do poeta é que nos carregamos de sentidos a apreensão e a invenção das palavras a se assumir quando o “nada que é o tudo”. Onde o destino faz-se uno à Natureza, de todos os homens, de todos as épocas.

A palavra mistério também apresenta a mesma raiz de mito, formou-se pelo verbo myeisthai, traz o sentido de silenciar, velar. No entanto, silenciando o canto, ouvimos o ruído das mensagens não ditas. E, através do mito, percorremos os rastros de Logunedé que mantém viva à lembrança desse ancestral nas cantigas de rodas

Olóro a K’ofá re o a K’ofá re o
Rere, a K’ofá
Èmi o re’le Logum o
Re’le a K’ofá

A memória que se doa ao tempo torna-se a fala cantada da trajetória iniciática que antecede as novas formas humanas. Por isso o percurso dos deuses assemelha-se a própria natureza metamorfoseando sempre. Cabe, analisarmos a iniciação como apenas uma das múltiplas etapas que confere o ser quando o ser passa a Ser. De modo que, sua ação, recai a nossa criação, uma vez envolvido no todo/tudo/nada. É implícito, contudo, a impressão das várias mensagens que nos chegam aos ouvidos, o que demonstra a fragmentação da obra a partir da própria contestação dos fatos. Comprovar as provas no que exprimem essas falas torna-se impossível. Do mais, o material a que nos dispusemos confere ao próprio caminho (in)certo pelo qual passa o ser em suas fases. Como elucida um de seus orikis:

“Ológum fihón/ funfun loni ni òla/ ó yióò fihón dúdú”, tendo como idéia: “O feticeiro mostra a pele que desejar: se mostrar pele clara hoje, amanhã mostrará pele escura”.

Contam que Erinlé se afogou num rio. “O culto a esse rio e a Erinlé se confundem”, pois em homenagem ao caçador, as águas recebem o seu nome. Com relação ao nomear, várias alusões podem ser feitas à medida em que o ser torna-se o Ser nas profundezas (da água). “O nomear é sempre uma ultrapassagem. Daí porque a literatura se assume, se caracteriza como reino do além. Além do dito, além do sentido, além do pensado, além da nossa capacidade de compreender e de interpretar na totalidade. Além de nós mesmos”
Nota-se que a tramutação se deu no ato do isolamento. Sobre este aspecto nos espelhamos leitores e escritores de nós mesmos. No entanto, é preciso estar atento ao isolar-se, como confere, com bastante lucidez, a professora Kátia Veillard: “Quantas vezes pode-se estar enclausurado em torres, presos em armadilhas de orgulho e vaidade? Quantas vezes o ser humano vê-se em torres reais ou imaginárias impossibilitado de estabelecer comunicação com o mundo circundante, insensível aos problemas e acontecimentos contemporâneos?” Refiro-me, todavia, ao ato de isolarmo-nos para ouvirmos o silêncio do texto e o que ecoa de nós nele. O ato solidário, à medida em que é desempenhada a função de descobrir-se. Não é à-toa que a cultura ocidental prega o coletivo, de forma que não nos abtuamos à dor do só.

Contam, ainda, que o rio Erinlé continuava a correr quando encontrou Oxum nas aproximidades de Edé; e, do mesmo modo em que há duas fontes no jardim de Vênus, os dois rios se encontram, unindo-se. Dessas águas em deslizamento, surgiu o filho das águas: Logunedé.
Por sua vez Logunedé assume o arquétipo do filho sendo regido e regendo o fluxo do corrente. É ele o filho/deus do amor. O único destino dos homens, o que nos aproxima dos deuses. Por isso qualquer devaneio sobre esse sentir, gera em sua motriz, formas perspicazes e sofisticadas a efeito de arte como tentativa de explicitá-la. Amor, como desenvolve Affonso Romano de Sant’Ana, nada tem a ver com ama em grego, embora este signifique juntos. Podemos ampliar este significado com eros mas a raiz dessa palavra indica atividade. O vocábulo egípcio traz a raiz MR, era representada por uma espécie de pá ou de cavadeira de camponês abrindo a terra. O fato de amar, produtivo e fecundante, implica ação, o semear cavando e movendo a terra, e para grafar a palavra amor, os egípcios usavam seu alfabeto especial e não o popular, porque sabiam também que o amor é coisa para os iniciados. Ao contrário de Freud, que analisa o amor como uma sublimação da pulsão sexual (Eros). Uma energia insatisfeita, uma carência em busca de completude.

Cabe a Logunedé, por excelência, o campo da bipartição, do duplo. Porque ele congrega, segundo dizem, as formas do pai e da mãe. É por isso que o espreitam tentando desvendar seu sexo (homem, mulher, macho fêmea. Andrôgino?…) e sobre essa acusação, a ação maior se prende, deixando-o transludir às outras passagens. De modo, preferimos seguir a fase infantil às outras, aludindo-nos ao imaginário para compreendermos o universo do qual se torna nosso verso, poesia rítmica. Pulso vital.

Logunedé é a máscara da fase primeira, inocente, pueril. Tramita nos barquinhos a travessia travessa que fazemos pelos mundos. O passageiro é a própria fase, segura no tempo, segura nas águas. E, nestas águas, tudo é possível, todos os caminhos são seguros.

O seu nome indica a marca do ritual, do mágico, das poções. É aquele que conhece os enigmas a ponto de fundir-se, tornando-o também um enigma. Envolvido às poções, e sendo ele uma delas, obtém o poder da transmutação. Assim sua imagem se transludi ao que desejar possuindo como a própria água, todas as formas e até desejo. Sobre esse aspecto, é provável levantarmos questões quanto a busca da identidade, por isso todas as tentativas, todas as formas de formar-se a ponto de em uma suprir a existência do ser que passa a (ser)es enquanto cópia, modelo, série - moldes por sinal bem adequados a era da modernidade.

E diante de tanta reprodução, como produzir? Como se tornar espelho sem se deixar refletir? Fundi-se a partir de tal, a imagem da miragem. Os nossos olhos, como confere Guimarães Rosa, “padecem de viciação de origem, defeitos com que cresceram e a que se afizeram”. Sobre esta temática: a do olhar, possibilitamos o não possível como jogo de uma esfera em que nossas leis não são aplicadas. O território é estrangeiro, onde habitam os reinos que nos reina. Assim, Logunedé torna-se passageiro de seu próprio ser a partir dos seres mascarados que (o/se) esconde, por isso, segundo dizem, assume em seis meses as características da mãe e se banha nas margens mirando-se num espelho, e nos outros restantes, se personifica a imagem paterna, tanto que se arma na selva para continuar a caça.

Apropriando-nos do símbolo paterno temos dois objetos a analisar: o arco e a flecha. O primeiro, em sua estrutura, nos apresenta a forma de um portal, logo associado a passagens. O segundo, por sua vez, assume o elemento fálico, símbolo da penetração. Indica também a direção em cujo sentido é de tornar-se o alvo, o centro do ser. É de fácil alusão pensarmos na projeção do deus, tendo como vista que essas flechas nunca deixam de atingir o alvo. O que seria o despertar dessa flecha? E o que atingir? A saber, várias figuras são mencionadas armadas a flechas: há um registro no manuscrito italiano do século XII, em que Deus aparece expulsando Adão e Eva a flechadas; tal como Apolo , na Ilíada, perseguindo os gregos. Kama, o deus do amor, é representado por cinco flechas. Cupido também se arma a golpear-nos. Por este lado, a flecha apresenta o sentido da morte, a morte dos sentidos.

Em analogia à mãe Oxum, o espelho torna-se o referencial a aquisição do ser quando a representação do objeto traduz signos a apreensão dos sentidos no que confere a própria matriz fecunda a gerá-lo. O espelho, não é visto como mero objeto pois ele também se faz objeto a ponto de representá-lo, fundí-lo em imagem e miragem. O espelho nos remete a idéia do observador, aquele que especula o céu e os movimentos das estrelas, portanto, de esfera superior.

O espelho apropria o símbolo dos símbolos, uma vez que reflete tudo o que é. No tocante, quais as armadilhas impostas no ver quando condensadas a realidade? Sofre com isso, a impressão fragmentada da própria imagem onde o ser se constitui. É cabível mencionarmos a gama de imagens na esfera midiática fazendo com que a nossa imagem seja vinculada, cada vez mais, a miragem. Tendo-nos impressões ou certezas a ilusão é posta, cegando-nos das possibilidades de ver o objeto como ele é. Recai, contudo a própria apropriação que fazem de nós e que fazemos do mundo dependendo dos modos/moldes implícitos no olhar. Os espelhos, pelo menos no senso comum, não mentem, daí a consulta a eles interpelados por perguntas célebres como: “Espelho, espelho-meu…”.

Oxum, associada à Vênus, é descrita como uma bela mulher que vive às margens das cachoeiras e rios mirando-se. O que tanto, afinal, vê? A trama se envolve, como a exemplo de Narciso, à contemplação da bela imagem ou da imagem bela - efeito estético, almejado por padrões de beleza e moda. É sabido que a humanidade mirou-se nas superfícies das águas com o intuito de se ver. De lá para cá, esse fascínio hipnotizante é responsável pelos grandes conflitos existenciais, assim: “Narciso fica ao abandono, lutando num jogo erótico à beira do lago, para alcançar a imagem (objeto do amor)”

A ação é baseada, a princípio, em olhar para a superfície/espelho, quando há nele(s) a profundidade da qual se esconde o ser. O olhar a superfície seria apenas uma das etapas, talvez a mais inocente, não é à-toa, que despreocupadamente, usamos o termo “na superfície” para indicar algo superficial. A profundidade torna-se o nosso fantasma, o pavor a adiar.

Desafio proposto: desbravamo-nos a olhar-nos… Em comum, a postura do olhar segue destacando o horizonte que representa o corte, tanto na horizontalidade, quanto na verticalidade. E esse corte não é gratuito. Ele possibilita um novo caminho, uma nova travessia, um estagio efêmero que exige outras travessias. Sobre este ponto, a alusão ao espelho, pode-se dar ao próprio horizonte por onde perpassam as águas. A postura do olhar deve ser analisada, uma vez em que se projeta - como a flecha - àquilo que somos. Adiamos o encontro com as águas dos lagos, mas, irremediavelmente, nos vemos através dos livros. Este movimento insere, de certa forma, o olhar para o horizonte onde se espalha/espelha nossa própria imagem, sem facetas, sem máscaras. Por isso tanto nos fascina o horizonte, o além mar, onde moram seres do nosso imaginário.

E é pelo imaginário que o convite nós é, portanto feito. Os instrumentos não são mais representações de Erinlé e Oxum, mas a do próprio Logunedé que possibilita o deslocamento necessário quanto aos moldes humanos/mundanos.

Refletindo, ainda, pela simbologia dos objetos, o desenho das formas constituem uma continuidade, no que tange a estrutura do molde objetal. O arco-flecha desenha os traços horizontal e vertical numa objetiva de 180º C. Congrega o simbolismo da movimentação dos elementos, de cima para baixo, de baixo para cima a partir da horizontalidade.

O espelho, contudo, ultrapassa o vazio deixado nos outros 180º C., segue a forma perfeita da circunferência, desviando, assim, a horizontalidade supostamente calcada no objeto de signo masculino. A movimentação se dá sem nenhuma interrupção (360º C). Assim, todas as direções se tornam iguais, tendo como ponto, o início, o centro, o alvo. A flecha segue instintivamente o mirado, faz-se o ponto marcado por onde todas as direções serão dadas, como a água que emerge da terra para seguir os astros do céu. E, após ter freqüentado os ares, desce, novamente, a preencher a escala do ciclo que não ser inicia, apenas continua.

Notemos que os vestígios do chefe tribal são contados sobre a condição humana. O que nos sobra dessa experiência nas águas resulta num preenchimento do vazio, a partir do filho como continuação de algo, como continuação dele mesmo. Erinlé se desfaz da cena, dando novo vigor à atmosfera de Logunedé, pois o que é contado, sobre o pai, pára por aqui. O que se sabe a partir é sobre o nascimento de ser(es). Cabe lembrar que o nascer nas águas de Edé, nos remete a divinização enquanto manifestação de vida/morte/vida. À rigor, ambas andam lado a lado, ou se tornam uma… Logum manifesta em sua presença a mesma potencialidade, pois ao nas(cer), é nascido com ele, o Ser, como Buda, que já nascera Veda. Por isso sua morada, seu batismo em cujo azul torna-se tão profundo, lá vivem seus animais estimados.

No entanto, mesmo morando no azul da água, Logunedé se mostra às vezes, com a mesma arma, indo habitar a “terra” do pai e a caçar como ele fazia. Por outro lado, assim como na outra margem, sua mãe Oxum, vive na posse de um espelho - relação direta ao céu, quando a prática a esse costume fora influenciado pelos árabes a verificação dos astros e estrelas. Se a trajetória iniciática do chefe nos é contada antes da transmutação, desconhecemos, todavia, a trajetória de Oxum anterior às águas, levando em consideração a morada que faz necessária a “travessagem” do ser.

O que podemos prever, possibilitados pelos objetos, é que o signo masculino detém os instintos, àquilo que há de mais primitivo em nós. Homem e terra em culto. À propósito, a palavra cultura apresenta a mesma raiz do verbo “colo”, significa cultivar a terra, de onde se extrai e tudo se deposita. Sobre este signo, a representação se estende ao artesanal, ao agrário, onde o ritmo do trabalho se mesclou ao som desses instrumentos doados a musicalidade da rotina. Se porventura, Erinlé não mais o usa, não devemos esquecer que, de alguma forma, esse processo esteve amarrado a sua história. O processo de descobrir-se envolve todas as etapas do ser, por isso o filho se autentica, afirmando a história primitiva, que engloba não apenas o ser, mas o que somos. Logunedé se porta a imagem do pai, representando uma tribo, talvez inexistente… De qualquer modo, em sua estrutura há a memória por ser tornar o sobrevivente de um ser, raiz selada, guardada, representada a partir de máscaras ora andarilho, ora nadador.

No emblemático espelho, sugerido olhos de Oxum, o ser torna-se aquilo que é: divinizado, espelhado em essência atingido pelo alvo e sendo o próprio alvo. Uma alusão portanto ao futuro, àquilo que seremos, como se já estivesse escrito nas estrelas. A movimentação, já dita anteriormente, faz-nos crer nessa constituição a partir do movimento subjetivo para o baixo, para a água que se torna a morada do ser. Por sua vez, Oxum, através do espelho, nos remete a movimentação para cima, até porque o que é mirado nas águas naturais senão o céu.
Na terra, Logunedé refaz o mito quando se distingue do que verdadeiramente somos/seremos. Unido no corpo-todo/todo-corpo, resta-nos, sobretudo, a impressão mutilada dos sexos dos anjos, lembrando-nos que anjos não têm sexo.

De modo, o que é original a Logunedé é a origem do ser que se torna ser a partir da origem. Onde habita o “nada, o adan, o dna”.

Lá Logunedé torna-se o pedido daquela tribo antiga que recorria às águas que iam, a volta do chefe Erinlé. A profecia de Orumilã se cumpre, as oferendas são aceitas, por isso o amuleto se apresenta em potencial. Não é dito, por sua vez, se Logunedé é reconhecido como manifestação de Erinlé pela tribo, e nem se a tribo ainda existe, pois sozinho vive. Do mais, o que compete a nós senão apreciar o caminho impressionista do orixá; a fazer estrela do céu, brilhar no mar; cavalo da terra, a nadar. Todas as formas, todos os cultos, toda a vida. Coisas simples que o homem envolve em mistério.

Cria mito.
Façamos parada em um ponto/porto, não frustrados, mas seguros de que a travessia total é impossível ao homem, a não ser àquele que segue o menino, que faz a barca para navegar sem fronteiras, limitando-se a desbravar seus mitos, seus mistérios; conhecendo-se, navegando sem fim pelo mundo palpitante que corre à travessia. A sua casa é o mito, e nós, sua morada.

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